A luta pela redução da jornada de trabalho deve sair dos gabinetes e retomar as ruas
Publicamos, nessa mesma coluna, ainda no mês de maio e na esteira dos debates levantados no dia internacional dos trabalhadores, a posição de nossa diretoria que abordava a necessidade de realizarmos um balanço entre os trabalhadores acerca da tática que vem sendo utilizada pela direção do movimento operário e por parlamentares da base governista na luta pelo fim da escala 6×1, ou seja, na pauta histórica da redução da jornada de trabalho.
O centro das críticas que fizemos partia do fato de que a tática utilizada por lideranças sindicais e parlamentares ligadas ao governo federal deslocou o eixo da luta que começou na internet e tomou ruas e locais de trabalho, para uma disputa parlamentar e pautada pelo calendário eleitoral. O governo Lula ao “abraçar” e tomar para si a pauta, o fez retirando o peso da pressão popular e operária, que eram justamente os elementos que vinham forçando os parlamentares a se declararem a favor da demanda. O “abraço” ocorreu enquanto os atos de rua e dentro de shoppings e centros comerciais se espalhavam pelo país e reverberavam nas redes sociais, ao mesmo tempo que a pauta era incorporada por movimentos grevistas de operários, fazendo o apoio popular à pauta ultrapassar os 70% e pressionar parlamentares de todos os partidos a também se posicionarem a favor.
A tática utilizada pelos setores governistas para a pauta passou por arrastá-la durante todo o ano de 2025 em baixa fervura para que em 2026, um ano eleitoral, fosse elencada enquanto prioridade na luta parlamentar e pudesse render os devidos dividendos eleitorais. O esfriamento das ruas para o direcionamento a um debate mais “responsável” sobre a pauta no parlamento era exatamente o que exigiam os representantes do grande empresariado industrial e de serviços. Essa “demanda” foi atendida pela tática governista, que abandonava o fortalecimento da pauta através da luta de massas nos locais de trabalho e nas ruas.
O 1° de maio deste ano já nos dava um forte indício de que a tática da burguesia para esfriar as ruas já rendia um importante resultado: estávamos, contraditoriamente, na iminência de garantir a aprovação de uma pauta histórica na luta dos trabalhadores – a redução da jornada, sem redução de salários –, mas o 1° de maio foi marcado por atos esvaziados e realizados de forma protocolar. O peso da data e os resquícios da pressão popular funcionaram frente aos deputados em Brasília, que, em geral, têm maior proximidade com eleitores e bases de apoio mais reduzidas em seus Estados do que os senadores, o que, naturalmente, gera maior concorrência por votos. Em 27 de maio a proposta de redução da jornada para 40h semanais e de fim da escala 6×1 foi aprovada em dois turnos na Câmara, sempre com mais de 460 votos favoráveis e cerca de 20 contrários.
Contudo, a demonstração de debilidade da pressão popular funcionou tal qual o cheiro de sangue, que, sentido pelos tubarões, precede o ataque. Os “tubarões” que comandam o Senado, e defendem os interesses burgueses, entenderam rapidamente o momento oportuno. Logo que chegou ao Senado, a proposta foi direcionada a gaveta do Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que passaria a atuar em dois flancos: jogar a votação para depois das eleições e negociar pautas de seu próprio interesse enquanto prometia aos governistas lhes dar uma bandeira eleitoral para ser agitada. O senador não apenas conseguiu sucesso em ambos, como anunciou o adiamento da votação em plenário, após sua aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com um sorriso de deboche no rosto. Os governistas tomaram uma rasteira que poderá custar caro aos trabalhadores do país.
A correção de rumo da luta em curso pela redução da jornada ainda pode ser realizada, sem que precisemos esperar apenas um balanço após a tragédia já acontecida. Estamos em condições piores, visto que a proposta original já foi bastante retalhada em sua primeira votação na Câmara dos Deputados, mas as lutas da classe trabalhadora não ocorrem em condições de nossa escolha. Cabe a nós, trabalhadores conscientes da justeza da luta pela redução da jornada, combater a tática dos gabinetes e retomar, já a partir deste mês de setembro, a luta pelo fim da escala 6×1 para as ruas e locais de trabalho!
